Enfermeira que denunciou racismo de diarista disse que caso afetou toda a família: 'Experiência que marca, machuca e desestrutura'
29/08/2025
(Foto: Reprodução) Enfermeira denuncia que sofreu racismo de diarista após reclamar de faxina em Goiânia, Goiás
Reprodução/TV Anhanguera
A enfermeira Luciana Ponciano, que denunciou racismo da diarista Sthefany Sibele França, disse ao g1 que caso afetou toda sua família. “O racismo não é uma opinião. É um crime. E mais do que isso, é uma experiência que marca, machuca e desestrutura,” desabafou a enfermeira.
“E quero com isso dar exemplo, para que minha filha não se cale se um dia acontecer o mesmo com ela, disse Luciana.
O g1 entrou em contato com Sthefany, mas a diarista informou que não quer se pronunciar sobre o caso. Em depoimento à polícia, a profissional confessou ter enviado as mensagens para a enfermeira.
A ofensa aconteceu no dia 9 de agosto, em Aparecida de Goiânia, na Região Metropolitana da capital. De acordo com Luciana, a profissional começou com as ofensas após ela comunicar que não havia gostado do serviço de limpeza realizado no apartamento em que mora.
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“Essa história afetou minha família no sentido de que somos honestos, trabalhadores, todos formados graças a Deus, e alguém vir e se referir a mim e toda a minha raça com preconceito, não fere só a mim, mas toda a nossa história de superação, que desde os nossos avós, não foi fácil,” contou Luciana.
Indiciada por injúria racial
No dia 20 de agosto, a diarista foi indiciada por injúria racial. O delegado do caso, Joaquim Adorno, informou que a pena base do crime é de reclusão de dois até cinco anos.
“Como ela praticou o mesmo crime em dois momentos distintos, ela pode ser condenada pelas duas condutas, ou seja, pode chegar a 10 anos de prisão, afirmou o delegado.
Ao g1, Luciana contou que está aliviada com indiciamento e quer que ela seja responsabilizada. “Meu sentimento ainda é de revolta. Por tudo que ela me disse e repetiu, e até agora ela não foi exposta, e ainda não foi responsabilizada,” contou ela.
Luciana informou que esperava uma medida protetiva contra a mulher indiciada porque a diarista ainda tem clientes no mesmo condomínio que a enfermeira mora.
Ao g1, o delegado Joaquim disse que o inquérito foi concluído e que nesse caso não cabe medida protetiva nos moldes da Lei Maria da Penha, o que cabe seria a medida cautelar, mas ele não viu necessidade.
Não vimos essa necessidade, até porque após intimada e ouvida, a autora cessou todo o contato com a vítima, mas isso não impede que a própria vítima peça no processo judicial, disse o delegado.
Em nota, o Ministério Público de Goiás informou que ainda não existe processo, somente o inquérito foi concluído. O MP afirmou que foi requerida uma diligência que ainda está pendente de realização pela Unidade de Processamento Judicial.
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Enfermeira que denunciou racismo comentou sobre caso: 'Experiência que marca, machuca e desestrutura’, Goiás
Arquivo pessoal/Luciana Ponciano
Segundo Luciana, quando a diarista a ofendeu ela não atacou somente ela, mas toda sua família. “Que apesar de eu ter pele clara, meus pais, meus irmãos e avôs são negros mesmo,” disse a enfermeira. Segundo ela, sua família sofreu muito preconceito por gerações.
De acordo com Luciana, é desumano ser alvo de frases como “você é chata porque é de cor” e “seu cabelo de bombril”. A enfermeira ainda cita que essas palavras carregam o peso de séculos de exclusão, discriminação e silenciamento.
“Elas não são isoladas, elas são sintomas de um sistema que insiste em desvalorizar pessoas negras e racializadas []. Portanto, quando ela fala dessa sua raça não se espera mais nada ela fere toda a minha trajetória.” contou ela.
Segundo Luciana, a repercussão do caso trouxe coragem para outras pessoas denunciarem, muitas pessoas chegaram até ela para falarem de fatos parecidos, mas que não tiveram a coragem que ela teve.
“Afeta a autoestima, a saúde mental, o convívio social e a segurança emocional da vítima. Faz com que a gente questione nosso lugar no mundo, como se tivéssemos que pedir desculpas por existir,” contou a enfermeira.
Relembre o caso
Enfermeira denuncia que sofreu racismo de diarista após reclamar de faxina, em Goiás; veja
No dia da faxina, a enfermeira contou que fez uma ligação para a diarista, perguntando se ela queria almoço, mas a diarista dispensou, dizendo que já estava indo embora. “Eu falei: ‘Mas já? Muito rápido’. Ela falou: ‘Sua casa é muito limpinha e eu não tive trabalho nenhum’”, relatou.
A enfermeira disse que fez o pagamento do serviço por PIX, mas que, ao chegar em casa, percebeu que o serviço não tinha sido feito. Diante disso, Luciana gravou vídeos mostrando locais que estavam sujos e enviou para diarista, que respondeu com ofensas à cor da enfermeira.
Em prints divulgados pela TV Anhanguera, a diarista chama a moradora de chata por ser negra e admite que tem preconceito. Após receber as primeiras ofensas, a enfermeira voltou a receber novas mensagens da diarista com ofensas, além dela debochar da denúncia. Nas mensagens, ela ainda se referiu à enfermeira como “cabelo de bombril” e declarou: “Branco nunca me ‘encheu tanto o saco’”.
“Você é chata porque é de cor”, disse em uma das mensagens, ao que Luciana questionou: “Você tem preconceito com pretos?”. A diarista respondeu: “Demais, do seu jeito, sim, que reclama, que fica exigindo. A sua raça é isso aí, não se espera mais nada”, afirmou (veja os prints abaixo).
Enfermeira denuncia que sofreu racismo de diarista após reclamar de faxina, em Goiás
Reprodução/TV Anhanguera
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