Figurinhas da Copa geram resíduo que pode permanecer por até 100 anos no ambiente; entenda o que fazer
30/05/2026
(Foto: Reprodução) Álbum de figurinhas da Copa gera toneladas de lixo e a maioria não é reciclada
E se eu te disser que preencher um álbum da Copa do Mundo pode gerar um lixo que vai durar mais de 100 anos na Terra? O fato é que o material onde a parte colante da figurinha vem protegida é o liner, um tipo de papel siliconado. Para que ele seja reciclado, é preciso um processo longo e caro, e há poucas iniciativas no país. Ou seja, ele acaba virando lixo.
Colecionar álbuns de figurinhas da Copa é uma tradição que existe há décadas. A cada Mundial, são bilhões de figurinhas vendidas pelo país.
♻️ A maioria das pessoas pode achar que, por ser papel, tudo é sustentável. Basta colocar no lixo reciclável e o material volta para o mercado, transformando-se em um novo papel.
O que acontece com esse papel explica, na prática, a diferença entre uma embalagem ser reciclável e ter reciclabilidade. E isso muda tudo no jogo do impacto ambiental.
Um material reciclável é aquele que pode ser transformado em um novo produto por meio da reciclagem. Por exemplo, uma garrafa PET pode ser reciclada inúmeras vezes. Isso ajuda a diminuir a produção de plástico no mundo, usando o que já está disponível.
Isso é diferente da reciclabilidade. Esse termo é usado para definir o potencial que os materiais têm de passar pelo processo de reciclagem. Alguns exigem processos caros, que acabam dificultando que o material seja reaproveitado e continue circulando.
Na prática, o processo é difícil, custoso e com poucas opções na cadeia. Imagine que são vendidas figurinhas em todo o país e não há, em todos os estados, um local que consiga reciclar esse material. O fim dele, infelizmente, é poluir o meio ambiente.
🔴 ATENÇÃO: ainda que haja pouca reciclabilidade, é importante que o liner seja descartado no lixo reciclável. Na triagem, alguns centros podem conseguir encaminhá-lo para empresas que fazem esse tratamento.
Criança de Manaus se emociona ao tirar figurinha rara de Cristiano Ronaldo no álbum da Copa.
Reprodução/Redes Sociais
E de quanto de poluição estamos falando?
A Panini não divulgou quantas figurinhas tem produzido por dia nem qual é a estimativa de impacto da produção.
➡️ Para entender a dimensão do problema, o g1 usou como base o número de pacotes de figurinhas vendidos nos primeiros dias de uma ação de uma plataforma de entrega com a editora do álbum e contextualizou esses dados com uma ação de coleta de liners realizada na última Copa do Mundo, em 2022.
Segundo a plataforma, foram vendidos 6,7 milhões de pacotes. Eles vêm com sete figurinhas cada um. Ou seja, estamos falando de quase 47 milhões de adesivos.
Em 2022, na Copa do Mundo do Catar, a Dow Brasil, que faz a parte siliconada usada pela Panini, recolheu o equivalente a 168 mil liners em uma iniciativa de reciclagem — o que representa apenas uma fração do que foi produzido. De acordo com a empresa, esse volume correspondeu a 42 quilos de papel liner encaminhados para reciclagem.
Álbum da Copa do Mundo 2026 da Panini.
Reprodução/Panini
Com base nesses números, os quase 47 milhões de adesivos vendidos nos primeiros dias corresponderiam a aproximadamente 11,7 toneladas de papel liner. Até o fim da Copa do Mundo, esse número vai ser ainda maior.
Quando o liner vai para o aterro — que é o destino mais provável —, ele não desaparece antes de muitas outras Copas. O revestimento de silicone retarda a decomposição e, segundo especialistas, ele pode levar até 100 anos para se decompor. Nesse processo, misturado a outros resíduos, contribui para a emissão de gases de efeito estufa.
E quem é o responsável?
O especialista em ESG explica que a cultura do álbum existe há décadas, mas ela não foi acompanhada por uma nova cultura sobre o lixo gerado.
Apesar de o Brasil ter uma Política Nacional de Resíduos Sólidos, que prevê que fabricantes sejam responsáveis pelo destino de suas embalagens, a legislação ainda deixa dúvidas sobre o que exatamente precisa ser recolhido.
A Panini vende as figurinhas, que vêm nos pacotes. A figurinha acaba não virando lixo porque é colecionável. A lei não é clara sobre tudo o que compõe o produto nem sobre de quem é a responsabilidade, já que há uma empresa que fornece o liner.
Hoje, há algumas iniciativas, como a da Polpel, em Guarulhos. A empresa está com uma campanha para receber liners de consumidores. No entanto, para participar, é preciso enviar o material até a fábrica.
Acaba que a responsabilidade fica no consumidor final. Claro que cabe a todos nós uma conscientização sobre o lixo que produzimos, mas, nesse caso, é dever de quem produz pensar na solução e dar destino ao resíduo. O quanto a gente ainda precisa avançar para ter uma figurinha que já seja reciclável desde a origem, sem exigir um investimento tão alto na reciclabilidade?
A Dow, que desenvolve a tecnologia em silicone, disse que tem ciência do problema sobre reciclabilidade e circularidade do material. Em nota, informou que tua em parceria com outros atores da cadeia para aumentar a reciclabilidade.
O g1 procurou a Panini, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.